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O carro, a praia e tu


 Estás sozinho em casa e ligas-me. Prontamente, atendo-te e dizes que queres estar comigo. Não penso duas vezes e encontro-me contigo em 10 minutos.

 Apareces na minha rua e com um sorriso dizes para entrar no teu carro. Levas-me até à praia e dás-me a mão. Pedes desculpa e deixas-me sem reação. Pedes-me que te perdoe as chamadas não atendidas, as mensagens não respondidas, os desvios de olhar na rua, as traições e os dias que perdi à espera de ti. Sempre esperei e tu não. Fugias sempre que tinhas oportunidade e eu cegamente aceitava.

 Os anos passam e eu percebo que tu vais e voltas, mas nunca te esqueces do meu número e consequentemente, de mim. Ligas-me com alguma regularidade, mas só agora é que me quiseste ver. Enquanto isso, no teu carro dás-me a mão e olhas-me nos olhos, sabendo que não resisto a esse sorriso. Roubas-me um beijo. Pensando bem, não me roubaste só isso… Aliás, deixaste-me a zeros. Ainda assim, não tens pudor em deixar ainda mais o meu saldo negativo. O saldo do meu amor próprio cada vez mais fica com mais algarismos abaixo de zero. Porém, o teu ego aumenta a cada cedência minha. Não é equilibrado, nunca foi na verdade.

 Sentes o meu fôlego a acelerar, as minhas palavras a esgotarem-se e o meu coração aperta. Preocupado abraças-me e tentas juntar todos os pedaços de mim que quebraste. Há já alguns anos que não me abraçavas e sentir-te, só mais uma vez, após tudo o que se passou torna-se estranho. Contudo, bom. É bom quando me abraças e também o era no passado. Sempre tiveste o dom de com o teu abraço fazer-me sentir reconfortado.

 Eu não sei explicar se é pela tua forma de ser, mas eu existo contigo. De novo, nesse momento, recomecei a existir. Creio que a parte que levaste de mim, trouxeste-a de volta e finalmente, deste-ma. Sinto-me completo. Por fim, sinto-me a minha versão mais completa – aquela que há anos já não sentira.

 Sem quês nem porquês, dizes que sentiste a minha falta. Dizes-me que foste procurar nos outros, aquilo que tinhas em mim. Acho que isso foi o teu preço a pagar por me tomares como garantido e durante muito tempo, recusaste-te a aceitar a ideia de que eu era a pessoa. A tua pessoa. Eu nunca conseguira encontrar nos outros o que encontrei em ti, a diferença é que eu o admitia sempre para mim. Tu não.

 Deixaste-me preso numa gaiola, como se de um pássaro de estimação me tratasse. Não me deixaste voar, nem te cantar ao ouvido as palavras que sempre fui guardando para mim. Ao invés disso tudo, prendeste-me e calaste-me. Deixaste-me num silêncio profundo e solidão constante. O único som que ouvira era o do meu respirar e pulsação e tu quase que também os silenciaste.

 Num segundo, via tudo claro como água e num outro, tudo ficou preto. Senti-me sozinho, num vazio escuro. Após uns segundos, sinto-me a respirar. Ofegante coloquei a mão no meu peito, abri os olhos e vi-me no meu quarto. Sozinho, como me deixaste. Apercebo-me que adormecera a ler as tuas cartas de amor e vejo que sonhei com o maior pesadelo da minha vida: Tu.

 O teu lado da cama está vazio, a cama já não tem o teu cheiro e no guarda-roupa tem só uma camisola tua esquecida. Visto-a e saio de casa, vou dar uma volta até à praia. Sozinho. Olho pro mar e dizem que ele leva tudo o que de mal nos faz. Peço-lhe que te leve de mim e volto para casa, deito-me na cama ainda desfeita e agarrado à tua camisola, adormeço. Espero não sonhar contigo, espero não viver mais nesta ânsia de te querer ver, mesmo sabendo que não posso.

 Espero que deixes os meus sonhos, tal como me deixaste. Repentinamente.



Rush

Blurred. || Porto, Dezembro 2016


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