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Sentidos perdidos


 Eu perdi-me contigo. Perdi-me em ti e no amor que sentia por ti… Ou sinto. Estou tão perdido que não tenho certezas de nada.

 Perdi os sentidos contigo. Todos! Fiquei cego de amor. Surdo aos conselhos dos outros. A vida não me sabia da mesma forma, tinha um paladar diferente. O meu tato modificou, senti de forma distinta os toques físicos das pessoas. Um abraço não era compreendido pelo meu cérebro, da mesma forma que os sentira quando estava contigo. O meu olfato alterou, deixou de sentir o teu cheiro. Nas roupas, na casa, na rua… Enfim, na minha vida toda.

 Depois de Ti, não fui o mesmo. Não consegui voltar ao que era antes de ti, porque – sinceramente – nem me lembro. Senti que a minha vida tinha começado quando chegaste e eu nunca quis que partisses.

 Por mais que mergulhasse nas palavras dos outros que lia, por mais interpretações que fizesse entre conversas e desabafos com amigos, por mais que tentasse desfazer-me das memórias de ti, tu continuavas lá. Continuaste em todos os cenários possíveis e imaginários. Assombraste-me com a tua presença não presente. Um pouco contraditório, eu sei… Mas, assim foi o nosso Amor.

 Queria-te longe, ao mesmo tempo que te queria perto. Queria que te calasses e pedia-te silêncios que, mais tarde, percebi que eram esses mesmos silêncios cheios de ruídos em que te encontrava… Aliás, encontrava-me também. No fundo, encontrava-nos a ambos.

 Deixaste-me sem sentidos. Deixaste-me sem sentido. Deixaste-me sem sentir os meus sentidos e perdido sem sentido. Faz(-te isto) sentido?

 Com a distância que foste ganhando, mais me aproximei da realidade. A cada passo que tomava nesse rumo, uma ferida abria-se. Sempre. Por ti, sangrei amor. Chorei alegrias. Gritei desesperos. Listei uma série de emoções sentidas. Redundante? Pois, tal como as minhas atitudes para te provar que te amava, após todas as vezes que te disse que te amava.

 Penso neste capítulo e interpreto a minha vida como uma bússola desmagnetizada. Onde está o Norte? Ao contrário do Sul demarcado por Ti? Talvez sim… Talvez não… Quem saberá? Quem me encontrará? Certamente, um localizador da Vida que me encontrará. Perdido e sem rumo…

 Continuo a caminhar. Passo após passo. Acredito que, um dia, irei lá chegar… Ao “onde” que ainda não sei. Porém, tenho a certeza de que irei lá chegar. Não irei fazer a caminhada sozinho, porque posso ter-te perdido, mas aos poucos ganhei-me e vou-me ganhando cada vez mais, a cada dia que passa. Para além disso, não é apenas do Destino que as grandes caminhadas se fazem. Tu foste uma paragem do trajeto, mas não o destino final. Esse ainda está para além da linha do horizonte e em direção ao Sol. Onde tudo brilha e se torna mais caloroso aos que por lá passam e chegam. Passo por passo, descubro o Sol. Um raio de cada vez, vai-me aquecendo. A mim e ao meu coração. E, todos os dias, são uma vitória por conseguir caminhar. E, todos os dias, o meu prémio são todos os raios que consigo coletar a cada distância percorrida.

 Podes ter-me deixado sem sentidos, sem sentido e sem vontade de sentir. Ainda assim, não me deixaste por completo a vontade de procurar a felicidade. Aquela réstia de vontade que por cá ficou, irá levar-me para outro lado. Para o Norte da vida. Para o calor do Sol. Para a vontade de sentir tudo de novo.  

 Até um dia, meu amor.
 P.S.: Vou ali ser feliz…


Rush


Madrid, jan/2019

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